Ombro: Síndrome do Impacto
"Divina é a tarefa do alívio da dor"
"Divine is the task of relieving pain".
~Hipócrates (460 aC - 377 aC), médico e filósofo grego, considerado o "patrono da medicina", por suas contribuições, teorias, estudos e constatações, nessa área.
Como sempre, aproveito este espaço para despertar no aluno um olhar mais criterioso sobre o seu corpo e, dessa forma, fazê-lo entender que toda prática pode ser lesiva, a curto, médio ou longo prazo, caso não seja respeitada a sua individual condição de saúde e dada a devida atenção à execução dos exercícios.
Assim neste texto, vamos voltar a nossa atenção à estrutura da articulação do ombro e compará-la com a articulação do quadril, ambas articulações classificadas como "bola e soquete".
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Como podemos ver na figura acima, a articulação do quadril é muito mais profunda, envolvendo realmente a cabeça do fêmur, tornando-a estável.
Já a articulação do ombro, embora categorizada com a mesma classificação, apresenta uma cavidade (glenoidal) que não envolve o úmero e aproxima-se do processo acrômio no topo. A vantagem é que como o ajuste não é tão justo, a mobilidade do ombro em relação ao quadril, é muito maior, o que nos permite maior mobilidade, embora deixando-a muito menos estável e mais propensa à luxação e outras lesões. Essa é a chave para entendermos que a estabilidade e, simultaneamente, a amplitude de movimento dessa articulação, será dada muito menos pelas estruturas ósseas e muito mais pelo conjunto de músculos, tendões e ligamentos, a fim de preservar a cápsula articular.
Outra grande diferença entre as duas articulações é que a arquitetura do quadril é própria para suportar peso, enquanto o ombro é bem mais delicado. Isso significa que o fortalecimento muscular, muito necessário, deve ser feito gradativamente e com muita atenção, sem ações prolongadas ou repetitivas.
A síndrome do impacto, por exemplo, resulta de microtraumas nos tecidos que se encontram no espaço entre a parte inferior do acrômio e a parte superior da cabeça umeral, chamado de espaço subacromial. Neste espaço, muito estreito, está presente o tendão do supraespinhal, a cabeça longa do bíceps e a bursa subacromial, que podem ser acometidos, a impactos de repetição entre a tuberosidade maior e o acrômio.
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Se através de microtraumas de repetição o tendão do supraespinhal, a bursa subacromial, o tendão bicipital ou qualquer estrutura ali presente, se tornarem inflamados e edemasiados, o espaço subacromial se tornará mais restrito, fazendo com que a tuberosidade maior do úmero avance sobre o teto formado pelo acrômio e ligamento coracoacromial. Quando a bursa está inflamada, por exemplo, o impacto torna-se mais evidente, o que irritará ainda mais aessa bursa.
Embora a causa dessa síndrome possa ser devido a variantes anatômicas congênitas e a traumas maiores (choque mecânico), a má postura associada à fraqueza da musculatura estabilizadora, poderá levar microtraumas de repetição, seja mediante as atividades diárias ou as esportivas, pois qualquer movimento induzirá ao impacto. Neste caso, o grupo de músculo do manguito rotador, sofre uma hipovascularização, mais precisamente perto da inserção do tendão do supraespinhal, um dos quatro músculos do manguito rotador que auxilia na elevação do braço e estabiliza a articulação do ombro, que correspondente ao local mais comum de inflamação, situação semelhante encontrada no tendão do infraespinhoso. (*)
Estresse, compressão mecânica, más posições sustentadas, tudo isso se aplica à sequência acima: uma combinação de tarefas repetitivas, que comprime a articulação mediante os padrões de movimentos diários.
Assim, para que essa extraordinária articulação seja preservada e, mesmo, reabilitada, a atenção e responsabilidade na ação, é fundamental.
A mim, caberá instruir detalhadamente aos nossos alunos, administrando e limitando a carga de exercícios e o estresse acumulado, a fim de aumentar o desafio gradualmente, ao longo do tempo, e não no espaço de "uma aula".
(*) Literatura:
A síndrome do impacto é classificada, segundo Neer apud Brotzman (1996), em três estágios e classificada em primária e secundária, conforme descrito abaixo:
Estágio I – Envolve edema e hemorragia no tendão do supraespinhoso e bursa e atinge uma população com idade menor que 25 anos;
Estágio II – Envolve fibrose e tendinite atingindo uma população de faixa etária entre 25-40 anos, podendo, se não tratado corretamente, evoluir rapidamente para o estágio III;
Estágio III – Envolve ruptura parcial ou total do manguito rotador e normalmente atinge indivíduos maiores do que 40 anos de idade.
Primário – Choque puramente mecânico, quando a estabilidade articular glenoumeral não está presente;
Secundário – Refere-se à diminuição do espaço subacromial causado pela instabilidade da articulação glenoumeral, ocasionada pela fraqueza dos músculos do manguito rotador e do tendão do bíceps ou pela instabilidade funcional
BROTZMAN, S. B. Clinical Orthopedic Rehabilitation. Saint Louis: Mosby, 1996
Claudia B., c.pilatesyoga@gmail.com
Pós-Graduação: Método Pilates – Fisioterapia Esportiva/ Certificação: Yoga – Treinamento Funcional – Treino em Suspensão